Joana Bicho - Psicóloga | Na Hiperactividade
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Hiperactividade

Hiperatividade na criança tornou-se um tema banal no nosso quotidiano. Hoje em dia usa-se e abusa-se de chavões e de diagnósticos que podem ser mal estabelecidos. Comentários do tipo: “esta criança tem uma grave perturbação de comportamento”; “esta menina tem aquilo a que se chama de hiperatividade e tem que ser tratada com medicamentos”; “acho que ele tem é um défice de atenção e tem que ir ao médico”; “esta criança é insuportável, não pára quieta e é agressiva, precisava era de uma boa palmada”; são comuns e chegam-nos aos ouvidos frequentemente.

Tenta-se abordar quase todas as questões como uma perturbação de comportamento ou comportamento desviante, procurando atribuir explicações de base neuro-fisiológica ou neurológica, apontando para um tratamento focado somente no comportamento e na medicação. Parece haver uma escassez de investigações que procurem atingir uma compreensão psicológica da criança. Por vezes, arriscando a dizer, quase sempre, o tratamento mais eficaz depende do estabelecimento com a criança de uma relação psicoterapêutica estável, continua e securizante (Emílio Salgueiro).

Então o que está por detrás da “hiperatividade”? 

Por detrás da hiperatividade estão profundas ansiedades que foram decisivas no modo como se organizaram as relações com as pessoas e com os objectos. As crianças expostas a grandes ansiedades ou com uma reduzida capacidade de tolerância à frustração podem desenvolver esta irrequietude. A hiperatividade é apenas um aspecto de um quadro bastante complexo, onde se inserem perturbações dos afectos, da psicomotricidade e do pensamento e linguagem; bem como, quadros psicopatológicos, dificuldades sociais e de relacionamento, e também, de escolarização/aprendizagem. Desta forma, torna-se bastante redutor pensar na hiperatividade como uma “doença” que tem que ser “curada”.

A instabilidade motora e emocional é uma procura constante de uma acalmia interna, difícil de conquistar através de outras formas. É através do agir que as crianças manifestam a sua irrequietude interna porque não há outra forma de a poder sentir, pensar e transformar. Só através de uma relação terapêutica estável e securizante, bem como do acesso às ansiedades primitivas, é que a criança aprenderá a pensar as suas ansiedades, em vez de as transformar em passagens ao acto.

A hiperatividade é, assim, um sintoma psicossomático, que esconde uma forte componente ansiosa e depressiva, e uma angústia de separação maciça. Quase que se pode dizer que as crianças se movimentam para se animarem, ou para, simplesmente, não sentirem! Devido a estas angústias há um bloqueio no pensamento e na actividade de pensar. Desta forma, o sofrimento e a dor mental ganham expressão pelo sintoma e pela linguagem corporal.

Pensar significa ter uma consciência clara de uma realidade impossível de suportar para um eu que é frágil. Pensar é, também e de alguma forma, sofrer, é ter que entender os não-ditos, os contra-ditos, de um passado pessoal, familiar e cultural onde o afecto não se ligou à curiosidade e ao mundo dos símbolos, das palavras e das coisas. Não pensar foi, assim, a solução mais fácil.

A capacidade de conter, de acolher, de suporte, de organizar e de estimular, promove o desenvolvimento e a capacidade de aprender, pensar e transformar. São estes aspectos que se trabalham em psicoterapia e que promovem a melhoria.

E porque a vida pode ser vivida de outra forma…
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